COLEÇÃO COLLECTION DC COMICS DE GRAPHIC NOVELS POR EAGLEMOSS

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domingo, 24 de janeiro de 2016

A destruição

No principio, Deus criou o céu e a terra. Depois de muitos milhões de anos, o homem criou coragem e resolveu assumir o comando do mundo e do futuro. Então começaram os seis últimos dias da história.

Na manhã do primeiro dia, o homem resolveu ser livre e belo, bom e feliz. Resolveu não ser mais a imagem e semelhança de Deus, mas ser simplesmente homem. E como devia acreditar em alguma coisa, acreditou em liberdade e felicidade, em bolsa de valores, em caderneta de poupança, em processo, em planejamento e desenvolvimento e especialmente segurança era a base. Disparou satélites pesquisadores e preparou foguetes carregados de bombas atômicas. E foi a tarde e a manhã do primeiro dia.

No segundo dia dos últimos tempos, morreram os peixes dos rios, poluídos pelo lixo das indústrias. Morreram os peixes do mar pelo vazamento dos grandes petroleiros e pelo depósito do fundo dos oceanos. Os depósitos eram radioativos.

Morreram os animais que atravessam as grandes auto-estradas, envenenados pelas descargas do trânsito infernal. Morreram os cachorrinhos de estimação, pelo excesso de tinta que avermelhou as
linguiças..

E foi a tarde do segundo dia.

No terceiro dia, secaram o capim nos cerrados, a folhagem nas árvores, o musgo dos rochedos e as flores no jardim. O homem resolveu controlar as estações segundo um plano bem exato. Só que houve um pequeno erro no computador da chuva. Até descobrirem  o defeito, secaram os mananciais. Os barcos que corriam pelos rios festivos encalharem nos leitos ressequidos. E foi a tarde e a manhã do terceiro dia.

No quarto dia morreram quatro bilhões dos cinco bilhões de homens. Uns contaminados por vírus cultivados em provetas. Outros, vítimas do esquecimento imperdoável de fechar os depósitos bacteriológicos, preparados para a guerra seguinte. Outros ainda morreram de fome, porque alguém não se lembrava mais onde havia escondido as chaves dos depósitos de cereais. E amaldiçoavam a Deus. Na sua mente atordoada e louca, julgavam Deus como culpado da demência humana. E foi a tarde e a manhã do quarto dia.

No quinto dia, os últimos homens resolveram acionar o botão vermelho, porque se sentiam ameaçados. O fogo envolveu a terra.

As montanhas fumegaram e os mares secaram. Nas cidades, os esqueletos de concreto armado ficaram negros, lançando fumaça pelas órbitas abertas.Os anjos do céu assistiam espantados  ao  espetáculo do planeta azul, que havia tomado a cor do fogo. Finalmente, ficou cor de cinza. E foi a manhã do quinta dia.
No sexto dia, apagou-se a luz. Poeira e cinza encobriam o sol, a lua e as estrelas. E foi a tarde e a manhã do sexto dia.

No sétimo dia, havia  sossego. Até que enfim. A terra estava informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o espírito do homem, o fantasma do homem, pairava sobre o caos. Mas, no fundo do inferno, comentava-se a história fascinante do homem que assumira os comandos do mundo. Gargalhadas estrondosas ecoavam, abafando até os coros dos anjos.





(Jorge Zink, 1979)
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